Auroville: uma proposta de vida diferente e (quase) sem dinheiro

O que você mudaria no estilo de vida contemporâneo de quem mora nas cidades? As pessoas costumam responder a essa pergunta criticando a maneira como os recursos públicos são aplicados ou sugerindo novos sistemas de governo. Na maioria dos cenários propostos, porém, o dinheiro continua tendo papel central na organização da sociedade.

 

Esse é um dos paradigmas que a Auroville, uma cidade experimental localizada no sul da Índia, tenta quebrar. Alguns podem chamar de utopia, mas a comunidade busca provar, na prática, que é possível viver de uma outra maneira.

 

Para compreendê-la melhor, é preciso abrir a cabeça. O ideal não é procurar em Auroville a solução definitiva para os problemas da espécie humana, mas sim tentar aprender o máximo possível com a iniciativa. Ou seja, levantar mais perguntas em vez de focar apenas nas respostas.

Auroville subverte a lógica do mercado de trabalho

Você há de convir que o individualismo exacerbado potencializa boa parte dos problemas que enfrentamos atualmente na nossa sociedade. Auroville buscou estimular o contrário: unir a humanidade, sem distinções entre crenças e cores. Ou, nas palavras da sua criadora:

“Auroville quer ser uma cidade universal, onde homens e mulheres de todos os países possam viver em paz e harmonia contínua, acima de todos os credos, acima da política e de nacionalidades. O propósito de Auroville é realizar a união humana.”

Quem proferiu essa frase foi Mirra Alfassa, conhecida como A Mãe (“The Mother”). Nascida em Paris, filha de mãe egípcia e pai turco, conheceu o guru Sri Aurobindo em Pondicherry, na Índia, e mergulhou no universo do yoga.

 

Desde meados dos anos 1950, Alfassa já falava sobre uma nova maneira de viver. Em 1968, leu as palavras da Carta de Auroville, transmitidas a todo o mundo. Estava fundada a comunidade.

 

Auroville foi projetada para abrigar até 50 mil pessoas, mas, de acordo com o último censo, realizado em janeiro de 2018, possui hoje 2.814 habitantes. Há pessoas oriundas de 54 países diferentes – incluindo 11 brasileiros –, sendo que a maior parte (1.223) da população tem nacionalidade indiana.

 

A cidade é dividida em forma de espiral. No centro fica a área da paz e o Matrimandir, ou Templo da Mãe Divina, um centro de meditação. Há também uma zona industrial, zona internacional, zona residencial e zona cultural. Em torno de toda essa área há um cinturão verde.

Mas o que torna Auroville tão especial? Como as coisas funcionam nesse município universal? Apesar de a comunidade ser constituída pela Fundação Auroville e possuir um Conselho de Administração e um plano diretor a ser seguido, a maior parte das decisões cotidianas da comunidade são tomadas pela Assembleia de Residentes.

 

Há regras a serem seguidas e decisões a serem tomadas. Para começar, a cidade está dentro do território indiano, portanto deve se submeter às leis do país (não são permitidas drogas, por exemplo). Quanto às regras internas, a assembleia aprova ou desaprova as resoluções por meio do voto.

 

O site de Auroville admite que o voto só é adotado por conta da “falta de um sistema melhor” e “com grande relutância dos membros”, já que muitos creem que um sistema de consenso estaria mais de acordo com os desejos da criadora, que propunha a “anarquia divina” como método de governo.

 

Além de buscar a participação de todos nas tomadas de decisão, a comunidade tem um forte compromisso com a sustentabilidade. No cinturão verde, são produzidos alimentos orgânicos destinados a alimentar parte da população auroviliana. O objetivo, ainda distante, é ter uma agricultura autossuficiente.

A cidade possui mais de 1,2 mil painéis de energia fotovoltaica (solar), moinhos de vento para bombear água e processos de produção de biogás e fertilizantes a partir de restos de alimentos e fezes de animais.

 

Os automóveis são fortemente desencorajados dentro dos limites de Auroville. Por outro lado, ainda há muitas motocicletas movidas a combustível fóssil, mas há um projeto em andamento para fomentar o transporte elétrico.

Há dinheiro em Auroville?

Auroville costuma ser citada como uma comunidade na qual o dinheiro não existe. Isso é apenas meia verdade. Apesar de a circulação de dinheiro em papel quase não existir, há vários produtos e serviços que custam dinheiro, sim.

 

A diferença é que a lógica da economia auroviliana é diferente. Todo mundo que mora na cidade precisa contribuir de alguma maneira com o projeto. Ou seja, precisa ter um trabalho. No entanto, não recebe salário por isso.

 

Os habitantes têm um cartão chamado aurocard, com o qual pagam suas despesas. A fonte desses recursos é muitas vezes, eles próprios. Pode ser dinheiro da aposentadoria ou guardado após décadas de trabalhos formais.

 

E quem não tem condições de se bancar, não pode morar em Auroville? Pode, sim. A maioria dos habitantes de Auroville dependem da “manutenção”, uma soma mensal que serve para suprir as necessidades básicas para viver na comunidade. Quem recebe essa quantia não tem uma vida luxuosa, é claro, mas consegue viver com dignidade.

 

O dinheiro vem do governo da Índia, de ONGs, de doações e hospedagem de visitantes, doações de moradores e, principalmente, da sua indústria e comércio. O incenso produzido em Auroville, por exemplo, é um produto conhecido no país.

 

Muitos vão estranhar, pois pode parecer que a pessoa trabalha em troca de moradia e comida, o que soa como exploração. É preciso lembrar, entretanto, que a ideia é se doar pela causa, e muitos moradores estão extremamente felizes com isso. Como uma septuagenária entrevistada pela BBC: “Existe algo neste lugar que é maior do que a gente”, disse.

 

Para morar em Auroville, é preciso ter dinheiro para pagar as despesas pelo menos do primeiro ano. Apesar de ser projetada para abrigar muito mais habitantes do que contempla hoje, há um déficit de residências na cidade. Quem não tem recursos para construir sua casa pode ter de esperar até uma acomodação estar disponível.

Auroville é o paraíso na Terra?

Não, porque isso sim seria uma utopia. Como qualquer outro lugar do planeta, Auroville tem seus defeitos. Em 2015, por exemplo, um jornalista da revista Slate publicou uma longa reportagem na qual apresentou o outro lado da comunidade, revelando casos de violência e suspeitas de corrupção.

 

É preciso entender, no entanto, que Auroville é um projeto em constante desenvolvimento. A própria comunidade admite que se trata de um experimento onde todos aprendem juntos. Quem está disposto a morar lá não deve ir buscando o paraíso, mas sim com o espírito de colaborar com a causa e ajudar a construir um lugar melhor.

Se você quiser saber mais, explore o site de Auroville e pesquise por relatos de quem já visitou ou morou lá. Abra a cabeça e lembre que a cidade – assim como tantas outras ecovilas e comunidades com propostas semelhantes no mundo todo – cumpre o papel de questionar, na prática, o modo de vida urbano atual. Ou você acha que nada precisa mudar?

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