Analfabetismo urbanístico: por que você deve pensar sobre isso?

Analfabetismo urbanístico: por que você deve pensar sobre isso?

Nós vivemos a cidade, todos os dias. A cidade é uma espécie de palco, onde a vida acontece. Você já refletiu, por exemplo, sobre os lugares que estão ao seu redor? Já parou para pensar que a cidade vai muito além dos limites do seu pátio, do seu prédio? Promover debates sobre o lugar onde se vive, ser protagonista da mudança e assumir que cada atitude pode influenciar o todo é uma forma de combater o que chamamos de analfabetismo urbano.

 

E não, isso nada tem a ver instrução ou escolaridade! Tem a ver com percepção, com transformação e com a sensibilização de que olhares precisam mudar. Vamos entender o motivo?

 

É tudo uma questão de olhar ao redor (e ir além disso)

O quanto você é capaz de observar o local onde vive? Tem insumos e informações suficientes para saber onde atuar e quais impactos têm suas atitudes? O termo analfabetismo urbanístico tem ganho cada vez mais popularidade, principalmente no meio acadêmico e em painéis sobre urbanismo ao redor do mundo. Isso motivado, principalmente, pela consolidação de movimentos em prol da sustentabilidade, economia colaborativa e cidades inteligentes. Mas, não só e apenas isso: a questão chega em um momento de quase colapso das grandes cidades, que sofrem com problemas de saneamento, subutilização de espaços públicos, tratamento de resíduos e mobilidade – citando apenas alguns, claro.

 

Poderíamos pensar de forma apocalíptica, acreditar que nada disso mudará e que uma transformação revolucionária demoraria décadas para ganhar forma. É esse pensamento, aliás, que nos leva a discutir sobre o analfabetismo urbanístico: o fato de achar que a atitude individual não é capaz de impactar, a ideia falsa que coloca apenas parte da cidade como o todo.

 

 

Você é muito mais do que os espaços que utiliza, sua cidade é muito além da sua própria casa. E essa consciência é apenas parte do processo de atuar sobre a cidade. Não olhar ao redor é uma prática quase unânime nas grandes cidades. Não conhecer a história da terra onde se vive e até os próprios vizinhos são dramas que os especialistas em analfabetismo urbanístico reiteram como primordiais para se superar questões mais graves.

 

Sem mesmo entrar em questões políticas, como a falta e falência de planos diretores sustentáveis, e mesmo políticas públicas embasadas e aplicáveis, é interessante pensarmos em como cada um de nós, cidadãos com direitos, mas também com deveres, pode ter uma participação ativa no combate a esse tipo de desinformação urbana. Seja no papel de cobradores das autoridades públicas, seja na frente de atuação diária, onde se coloca a mão na massa para fazer a mudança, como moradores de uma cidade ou bairro, temos inúmeras possibilidades de fazermos a diferença (e não só e apenas como exercício filantrópico, mas pensando em nosso próprio bem-estar).

 

O conceito de analfabetismo urbanístico aparece com o intuito de reflexão sobre o ato de habitar e demonstração de que até as simples atitudes são importantes para a melhora. Quer saber como?

 

Comece respondendo algumas perguntas

Se o assunto é informação (ou falta de), precisamos começar levantando algumas perguntas para verificar nosso nível de conhecimento sobre a própria realidade. Pronto para testar?

 

  • Onde o lixo que você produz vai parar? Como é feita essa coleta? Como você organiza seus resíduos hoje?
  • Como você se locomove diariamente? Como é seu trajeto do trabalho/estudo para casa? Há muito engarrafamento? Se você não usa transporte público, por que não o faz? Se você usa, o que poderia melhorar nele?
  • Quais são e como são os espaços públicos da sua cidade/bairro? Existem praças, prédios históricos, ciclovias? Eles estão sendo ocupados ou estão abandonados? São seguros? Com que frequência você os frequenta?
  • Como é o sistema de saneamento básico na região onde você vive? É bom, deixa a desejar? E nas regiões próximas a você? Você sabe se todas as pessoas da sua cidade/bairro tem acesso a água encanada e esgoto, por exemplo?
  • Como está a limpeza da sua rua? Você encontra muitos dejetos por onde transita? Existem calçadas transitáveis em seu bairro? Em quais ruas você evita trafegar e por qual motivo?
  • Existe alguma espécie de plano diretor no local onde você vive? Existe planejamento urbano? Já esteve presente em alguma ação participativa relacionada a orçamento ou revitalização do local onde vive? O que as autoridades locais têm feito pelo seu bairro? Você sabe?

 

Sim, são muitas questões a serem respondidas. Se você não consegue encontrar todas as respostas de cabeça, sem nenhum tipo de pesquisa, certamente não está sozinho. Mas, pode começar a fazer diferente. Não se trata de perda de tempo, mas de investimento na qualidade de vida e na herança para as próximas gerações.

 

Renove e inove seu comportamento

Não se trata apenas de investimento monetário e público, devemos investir muito no comportamento da população. Precisamos acreditar que a população se mobiliza, se sensibiliza se ela for tratada como ser inteligente. A partir da reflexão proposta pelas perguntas anteriores e de uma visão ampliada sobre sua região de moradia, é possível tomar ações práticas, que podem vir de diferentes esferas. Começar aos poucos, mudando pequenos atos, é garantir a autenticidade de sua mudança – afinal, nada pode mudar instantaneamente do dia para a noite.

 

Esteja próximo às esferas públicas de sua cidade: exija o que é de direito, denuncie problemas de estruturação pública, compareça em audiências de orçamento participativo, conheça os projetos em aprovação da sua cidade e, claro, vote consciente (sabendo dos projetos de seus candidatos e se informando sobre sua vida pública).

 

Pense no lixo que você produz: separar seus resíduos, reaproveitar materiais e descartar lixos tóxicos em locais apropriados e repensar seu próprio consumo já não são diferenciais. Visite cooperativas de reciclagem, esteja atento a projetos comunitários voltados a descarte de objetos e coopere com a limpeza da via pública (tudo começa com o papel de bala que você evita jogar no chão ou nas necessidades do seu cãozinho que você recolhe).

 

Repense seus trajetos: verifique se não é possível utilizar transportes públicos nos deslocamentos que você faz diariamente. Que tal dar uma boa pedalada de bicicleta para conhecer as ruas próximas a você? Caronas entre amigos ou colegas de trabalho também são uma ótima forma de colaborar positivamente com a sua cidade.

 

Conheça as histórias do seu bairro: pesquise, leia e converse com os moradores mais antigos do lugar onde você mora. Procure saber quem antes morou ali, quais problemas sua região já enfrentou, como o prédio, casa ou terreno que você mora surgiu. Faz sentido para você?

 

Ocupe espaços públicos: vá para a rua, conecte-se com a sua cidade. Se existem movimentos ou eventos que se apropriem de espaços comunitários, participe e esteja presente. Se não existem, quem sabe você mesmo pode promover? A segurança e a revitalização também dependem da população que demonstra na prática esse pertencimento.

 

 

Iniciativas que unem experiências para pensar a cidade

A desinformação sobre as cidades vem sendo combatida no Brasil a partir de diversas frentes. A maior parte delas baseadas no protagonismo social como forma de mudança. Colocar a cidade em pauta e escutar a percepção de diferentes grupos é uma forma nobre, justa e inteligente de promover a transformação.

 

A Talking City, por exemplo, é um projeto incrível que, a partir da abordagem do design, tem o objetivo de empoderar a participação dos cidadãos na construção de soluções de impacto e relevância para as cidades onde vivem. São consultorias, cursos e conteúdos estratégicos que criam um ecossistema de inovação, conectando organizações, cidadãos, hackers urbanos e governo em prol de resoluções úteis e sustentáveis.

 

É claro que a Wikihaus não poderia estar de fora dessa. Como forma de movimentar o olhar sobre o mundo que nos cerca, permanecemos em constante discussão sobre os principais temas da atualidade. A partir de soluções colaborativas, que escutam de ponta a ponta, buscamos transformar a cidade e o cotidiano da população – considerando que a vida circula por muito além das divisórias do local onde se mora. Ouvir de quem habita seus anseios, vontades, as perspectivas e desejos para o futuro é uma ótima forma de dar visibilidade às diferentes formas de pensar e viver. Colaborar e construir junto é o ponto de partida para a criação de uma nova geração de incorporação.

 
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